parte 2 Escultor do tempo

Qual é a essência do trabalho de um diretor? Poderíamos defini-la como “esculpir o tempo”. Assim como o escultor toma um bloco de mármore e, guiado pela visão interior de sua futura obra, elimina tudo que não faz parte dela – do mesmo modo o cineasta, a partir de um “bloco de tempo” constituído por uma enorme e sólida quantidade de fatos vivos, corta e rejeita tudo aquilo de que não necessita, deixando apenas o que deverá ser um elemento do futuro filme, o que mostrará ser um componente essencial da imagem cinematográfica.download (26)

Afirma-se que o cinema é uma arte composta, baseada no envolvimento de um grande número de artes adjacentes: teatro, prosa, representação, música, pintura… Na verdade, o “envolvimento” dessas formas de arte pode, como de fato se verifica, influenciar tão poderosamente o cinema, a ponto de reduzi-lo a uma espécie de pastiche ou – na melhor das hipóteses – a um mero simulacro de harmonia, onde será impossível encontrar a alma do cinema, pois é exatamente em tais condições que ela deixa de existir. É preciso deixar claro de uma ver por todas que, se o cinema é uma arte, não pode ser simplesmente um amálgama dos princípios de outras formas de arte contíguas: só depois de fazê-lo é que podemos voltar à questão da natureza supostamente composta do cinema. Uma combinação de conceitos literários e formas pictóricas jamais poderá ser uma imagem cinematográfica: tal combinação só poderá resultar numa forma híbrida mais ou menos vazia e presunçosa.

Também não se deve substituir as leis do movimento e a organização do tempo do cinema pelas leis que regem o tempo teatral.

[…] O cinema foi a primeira forma de arte a nascer em decorrência de uma invenção tecnológica, em resposta a uma necessidade vital. Foi o instrumento de que a humanidade necessitava para ampliar seu domínio sobre o mundo real. Pois a esfera de ação de qualquer forma de arte restringe-se a um aspecto da nossa descoberta espiritual e emocional da realidade circundante.download (27)

Ao comprar seu ingresso, é como se o espectador estivesse procurando preencher os vazios de sua própria experiência, lançando-se numa busca do “tempo perdido”. Em outras palavras, ele tenta preencher aquele vazio espiritual que se formou em decorrência das condições específicas da sua vida no mundo moderno: a atividade incessante, a redução dos contatos humanos, e a tendência materialista da educação moderna.

Por certo, é possível dizer que as outras artes e a literatura também podem representar uma resposta satisfatória à insuficiência da vida espiritual de uma pessoa. (Ao pensarmos na busca do “tempo perdido” ocorre-nos de imediato o título do romance de Proust.) No entanto, nenhuma das artes antigas e “respeitáveis” tem um público tão vasto quanto o do cinema. Talvez o ritmo, a forma como o cinema transmite ao público aquela experiência condensada que o autor deseja compartilhar, corresponda mais intimamente ao ritmo da vida moderna e à falta de tempo que a caracteriza.

Seria talvez até mesmo correto dizer que o público foi aprisionado pela dinâmica específica do cinema, em vez de simplesmente deixar-se arrebatar pelos estímulos que ele provoca? (Uma coisa, porém, é certa: o público de massa só pode ser uma faca de dois gumes, pois os segmentos mais apáticos do público são sempre aqueles que mais facilmente se deixam impressionar por novidades novidades e coisas estimulantes).

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