Escultor do tempo

Aqui em Brasília está acontecendo um evento muito legal com obras do cineasta Russo Andrei Tarkovski e com filmes de cineastas que foram influenciados por ele.

Infelizmente meu trabalho toma a parte mais bonita e proveitosa do dia, que é o período da tarde. Já que não posso assistir os filmes por falta de tempo, ao menos leio e estudo o livro “Esculpir o tempo”, de autoria do cineasta. Esse livro, que li há três ou quatro anos atrás, mudou todas minhas concepções sobre cinema.

Placeholder Image Comecei a estudar cinema com uma intenção e sai com outra após me sentir transformado pela leitura e pela ideia do fazer cinema como o trabalho de um escultor, lapidando o tempo para extrair do bloco de mármore um filme. Dia desses, circulando por ai, encontro esse livro abandonado em um sebo. Comprei e já posso dizer, escolho livros de cabeceira com tanto cuidado, que na altura dos 28 anos ainda não tinha um, agora tenho meu livro de cabeceira.

Um livro de eterna consulta, porque Tarkovski era tão obstinado, tinha convicções tão rígidas sobre sua arte, e encarava o ofício no cinema, não como mero lazer, mas como alimento para o espírito. Escolhi e transcrevi dois trechos do livro que resumem bem os princípios do cineasta em relação a seu trabalho.

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O tempo, registrado em suas formas e manifestações reais: é esta a suprema concepção do cinema enquanto arte, e que nos leva a refletir sobre a riqueza dos recursos ainda não usados pelo cinema, sobre seu extraordinário futuro. A partir desse ponto de vista, desenvolvi as minhas hipóteses de trabalho, tanto práticas, quanto teóricas.

Por que as pessoas vão ao cinema? O que as faz buscar uma sala escura onde, por duas horas, assistem a um jogo de sombras sobre uma tela? A busca por diversão? A necessidade de uma espécie de droga? No mundo todo existem, de fato, firmas e organizações especializadas em diversões que exploram o cinema, a televisão e muitos outros tipos de espetáculo.

download (25)Não é nelas, porém, que devemos buscar nosso ponto de partida, mas sim, nos princípios fundamentais do cinema que estão ligados à necessidade humana de dominar e conhecer o mundo e saber também como reconquistar um homem.

Acredito que o que leva normalmente as pessoas ao cinema é o tempo: O tempo perdido, consumido ou ainda não encontrado. O espectador está em busca de uma experiência viva, pois o cinema, como nenhuma outra arte, amplia, enriquece e concentra a experiência de uma pessoa – e não apenas a enriquece, mas a torna mais longa. É esse o poder do cinema: “estrelas”, roteiros e diversão nada tem a ver com ele.

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