Sobre pessoas envenenadas

A seguir um conto antigo sobre pessoas venenosas (ou envenenadas), nunca publiquei antes por algum motivo que não me recordo.

Sobre pessoas venenosas (ou envenenadas)

Sobre pessoas venenosas (ou envenenadas)

Minhas meias já encharcadas pelo lamaçal, difícil de andar. Cambaleei. A mordida era feia, pegou no calcanhar. As botas pesadas de borracha só aumentavam a dor.

Cheguei no mesmo bar em que conheci Aninha, uma jararaca, a mordida dela me doeu mais o coração do que a desta peçonhenta que me mordeu agora a pouco no pântano asqueroso, cheio de lodo, lama e fezes de animais noturnos. Aninha já não me doia mais. Ganhamos resistência, com o tempo, às mulheres venenosas.
Entrei na cidade pela rua da casa da luz vermelha. As putas transitando com suas varizes e pescoços salgados, lençois sujos de mofo, manchados de outras coisas. Viram-me atravessar a rua arrastando-me contra a parede de granito para me manter de pé. Não chegaram a rir, como de costume, quando querem humilhar alguém, mas ficaram de braços cruzados. Uma delas deve ter pensado: “Aonde esse marmanjo vai morrer?”.

Um cruzamento. Que tarefa difícil atravessa-lo com a visão turva pelos efeitos psicotrópicos do veneno.
Quinze homens, quatrocenta passadas, cinco mil tijolos, toneladas de areia e cimento e um pequeno dente de ouro, enterrados alí, sobre os meus pés. Cruzei a rua, balbuciava qualquer intolerância contra as pessoas ignorantes, insensíveis e omissas. “Não tenho culpa do seu sofrimento”, diziam. Seus… seus… “também não temos obrigação de ajudar o senhor, levante-se sozinho, homem que é”.

As portas de madeira do bar da rua 10 ainda estavam abertas, a última lamparina era uma fresta por onde jorrava a pouca luz. As cadeiras sobre as mesas indicavam que não era uma hora bem vinda para um cliente, por mais rico que fosse. Minha riqueza abundante era a morte, sangrando pelas minhas veias, exibindo-se pelo meu suor esverdeado. Cabelos desgrenhados, olhos fundos, rosto pálido. “Este homem, ele não está bem”, disse o comerciante. Meneou com a cabeça em tom de quem já viu desta porcalha antes e sabe bem que destino sangrento me espera alguns minutos a frente.

Sandra limpava o chão, ajoelhada. Cai sobre ela, que não se importou em amortecer minha queda. Derrubei o balde e certo de que iria morrer, beijei seu rosto, lambi suas lágrimas e encostei minha boca nos lábios macios de uma moça singela, ainda inexperiente. Eu sabia do veneno que abundava dentro de mim. O líquido viscoso escorreria para a boca dela, ainda assim, não evitei o beijo. Fui traiçoeiro como a caninana, e matei a moça mais pura daquela cidade miserável. Um beijo para fazer morrer.

Senti-me culpado. Mas ela quis outro beijo, eu não pude oferecer.

Fui erguido, levado para a cama e ainda espero pelo dia de acordar.


Poison – A música original é da banda de Ska e Hardcore “Rancid”, do disco “And out came the wolves” a releitura é de um grupo chamado “Your kid sister”, e o título do disco é uma brincadeira com o nome do disco do Rancid “I´ve waited but the wolves never came”. O título original dizia (em tradução livre): E então vieram os lobos, e a versão das meninas do Your Kid sister diz : Eu esperei, mas os lobos nunca vieram.
As meninas usam chapéus com orelhas de lobo de pelúcia, e o engraçado, na regravação delas, é que a letra é a mesma, mas ao invés das guitarras pesadas, da bateria acelerada e dos vocais rasgados, ouvimos uma voz doce e um instrumental quase onírico. Esta letra fala sobre como algumas pessoas são venenosas.

O triste, sobre pessoas que são atacadas por criaturas peçonhentas, é a forma como sua pureza acaba se esvaindo, resta apenas o sangue venenoso, as atitudes cruéis, a vingança gratuita e um embrutecimento, fruto do rancor e do ressentimento.
Nâo se permita envenenar neste mundo de víboras, e se já foi envenenado, não espalhe por ai os frutos dessa boca de maldade.

Sobre Gustavo

Jornalista por necessidade; cineasta por convicção; escritor e fotógrafo por amadorismo; procrastinador por profissão; magro de ruim.

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  2. kamilla

    pois é. e esse veneno está em mais coisas do que a gente imagina. filmes, programas de tv, jornais, relações conflituosas, fofocas, e mais tudo aquilo que compõe o nosso inconsciente coletivo nada mais é que uma grande cobra pronta para o bote. vigilância para não ser picado.

    • Verdade. Eu to me referindo mais a um veneno sentimental, mas existe também esse veneno intelectual que já corrompeu boa parte de nós.

      • O problema é que muita gente confunde amor (seja lá o que isso for) com vaidade e posse (o que não deve ser com certeza).
        Acho que essa confusão é que envenena as pessoas e as coloca em posição de ferir outras por mero capricho, prazer ou sensação momentânea de poder.
        Tentarei seguir seu conselho, com o veneno alheio e com o que já sorvi.
        um bju

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